quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Deus é mesmo real?

Quem nunca se perguntou isso? Hora ou outra deparamo-nos sem soluções, indignados e quase nunca pensamos que nós mesmos somos causa do que semeamos, mas Deus. Culpamos a Deus. Algumas vezes indignados com Ele, outras sem fé, apesar do clamor interior que impulsiona uma renovada esperança. Fato é que temos a tendência de atribuir a Deus - ou a sua "ausência" - aquilo que nos faz sucumbir lentamente - apesar de realmente nunca chegarmos onde nosso pessimismo nos leva virtualmente.

Admitir isso não nos faz menores. Afinal, somos vis de qualquer maneira mesmo... Ao contrário, é por vezes essencial questionarmos isso, porquanto precisamos de um Deus pessoal, não de um Criador genérico, um Ser Superior em que cremos existir, mas não em nossas vidas. Se Ele não existir em nossas vidas, não é real para nós. Apenas ouvimos falar... É necessário que tenhamos individualmente uma experiência com Deus de revelação, de intervenção, para que, então, creiamos e confiemos. Precisamos, sim, de uma experiência com Deus. E Ele se encarrega disso.

Eu vinha em busca de um sonho na América e precisei, claro, de 10 horas de uma aflita espera dentro de um "claustrofóbico" avião. Descrevo assim porque é o maior antídoto contra nossa ansiedade: desejamos dormir, mas geralmente (eu, pelo menos) não conseguimos, devido às cadeiras muito apertadas, o vizinho espaçoso, etc. Pensamos em nos distrair, mas não temos muitas opções, especialmente para quem está na classe econômica. Lá, ou enjoamos de ouvir todas as músicas do iPod ou grudamos os olhos no mapa virtual que mostra os dados da viagem. Nesse último caso é como ver as gotas do soro cair e escorrer para a veia, uma a uma lentamente, até acabar.

Olhava para a primeira classe (eu estava a duas poltronas da divisória, logo poderia notar a grande diferença) e me imaginava lá. Fiz planos racionais até perceber que minha realidade naquele lugar não passava da imaginação. Então, arguí a fé, lembrando-me de um episódio em que um pastor, ao ser questionado dentro do avião em que viajava quem era e ter respondido "sou um ministro" (de Deus), foi mudado para o lugar de honra que merecia, na primeira classe. Sempre conta o testemunho do qual naquele momento me lembrei. Eu sou o filho do dono de tudo - pensei eu antes de esquecer o devaneio.

Sentei ao lado de um americano e isso me alegrou muito. A viagem passaria rápida, pois eu planejava conversar bastante com ele, e ele já havia dado sinais de que poderia ser assim. Um senhor de meia idade, com algumas tatuagens visíveis no braço e aparentemente gentil. Parecia meio cansado e, por isso, tentei servi-lo como pude: fiz questão de prestar-lhe favores e retribuirqualquer gentileza. Eu estava satisfeito.

Ouvia música e orava um pouco. Sintia-me bem espiritualmente. Na verdade, sentia-me coberto pela graça de Deus ainda mesmo no Brasil. Sentir essa presença, ter paz interior com Deus é magnífico e eu cultivava o que não queria perder. O favor de Deus estava sobre mim e eu cria nisso. Os meus medos antes da viagem deram lugar à confiança no Senhor e eu estava leve.

Tentei dormir, mas realmente não consegui. Cochilei um pouco, mas aquele senhor americano estava prestes a tomar o meu assento também. Foi árduo, mas continuei gentil. A certa altura, tivemos um diálogo mais longo, com uma apresentação melhor. Já sabíamos onde cada um morava, o que fazia, por que viajávamos para os Estados Unidos e como funcionava o avião. Esses momentos eram interrompidos apenas quando aquele desgastado senhor precisava tomar sua medicação e, depois de alguns minutos, pedir água.

Tudo ótimo até o tal homem começar a demonstrar certas estranhezas. Começou tentando me aliciar (acredite!). Primeiramente, com sutilezas. Percebi e resolvi ignorar, apenas me afastando. Em seguida, com um gesto mais ostensivo. Eu o fitei sério e perguntei o que estava acontecendo. Com uma cara de deboche, ele me calou. A partir de então, tornei-me ríspido. A loucura mudou os sinais; agora, ele falava sem sentido. Abriu a janela e mostrou que o avião estava "parado"; disse que não saíamos do lugar; depois tentava criar uma teoria de que nós deveríamos estar sentindo frio e não calor... Eu morria de frio. Questionava a mim o que estava acontecendo. Eu, indignado, retrucava dizendo que ele deveria perguntar a algum comissário. Não ia mesmo dar vazão a doido (com o perdão da palavra).

Nesse momento, comecei a perder a tranquilidade. Mil coisas passaram pela cabeça. E senti medo, raiva, frustração, revolta... Comecei a orar e a repreender em mente aquele espírito maligno. Ao ver que o distúrbio continuava, orava cobrando de Deus o fato de eu ser seu filho e que Ele não deveria permitir que aquilo me acontecesse. A imagem de que me lembrava era a dos sodomitas tentando assediar os anjos do Senhor.

Resignado, levantei-me e fui falar com uma aeromoça para ser mudado de lugar, ao que ela respondeu que não era possível porque o avião estava lotado. Voltei e encontrei a mesma inquietação do homem; um profundo desequiíbrio. Ele a todo momento queria levantar-se, mexer em tudo, até no que era meu (disponibilizado pela companhia aérea). Novamente, levantei-me e procurei outra aeromoça, a qual deu a mesma resposta.

Eu já estava intolerante e revoltado. Não quis de maneira alguma voltar a sentar lá. Destarte, fiquei de pé junto aos banheiros localizados perto das asas do avião, onde foi montada uma espécie de cozinha (os passageiros tinham acesso para pegar água e os comissários guardavam alguns itens em armários embutidos).

Ainda faltavam três horas para a aterrissagem e eu estava disposto a ficar lá, em pé, por todo esse tempo. Resolvi adorar a Deus. Queria ser-lhe grato por tudo, apesar de quaisquer tribulações ou literamente turbulências. Foi quando questionei se Deus era real, pois sentia-me sozinho. A minha esperança, gerada pelo Espírito Consoloador, clamava dentro de mim para que eu cresse. Então, lembrei-me de um Salmo Davídico que fala que Deus pode nos encontrar na maior das alturas e no mais profundo da terra. Deus está aqui comigo - pensei -, a dez mil metros do chão, onde eu poderia ter segurança. Tudo o que acontecia, no entanto, levava-me a descrer nessa verdade. Nada acontecia e eu me sentia realmente abandonado.

No entanto, pouco tempo depois dessas orações misturadas com pensamentos, a última aeromoça com quem falei veio até mim e, preocupada, perguntou-me o que havia ocorrido. Depois de ouvir tudo, saiu, dizendo que ia conversar com o mencionado homem. A despeito de eu ter insistido para que não, ela foi e, algum tempo depois, voltou segura de que o homem era realmente louco. Disse que tinha um outro lugar para mim. Eu a segui.

Contra todos os meus pensamentos, fui levado à primeira classe, onde os requintes e caprichos eram maiores do que os que eu havia visto e outros tantos que havia imaginado. Ela me trouxe lençol, perguntou se eu desejava algo mais e me tratou com bastante distinção. Sentia-me muito acolhido e aliviado, quando ouvi uma voz no coração dizer: Eu te vejo e cuido de ti.

Tamanho da fonte
Alinhar à esquerda Alinhar ao centro Alinhar à direita ... Lembrei-me do meu pensamento prematuro sobre a única possibilidade de eu ir para a primeira classe. Deus é real.

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Ao final, a trinta minutos da aterrissagem, o homem invadiu a primeira classe em direção à cabine do comandante, falou algumas bobagens em alto tom para dois passageiros, que estavam sentados mais à frente (não me viu, nem sei se me procurava), e dirigiu-se à cabine. No caminho, ofendeu os comissários e chutou algo no caminho, quando foi agarrado por um comissário. Depois de algum tempo de luta corporal e a porta de um dos banheiros quebrada, cinco passageiros ajudaram o oficial de bordo a conter o alucinado homem, que foi algemado nas mãos e pés e arrastado para onde estava sentado.

Avião parado, portas abertas, sete homens do FBI o arrestaram. Eu prestei depoimento.

Depois disto, o último desafio: passar pela imigração. Por conta do episódio (obrigado, Deus), os agentes estavam tão desconcentrados que apenas me fizeram uma pergunta e antes mesmo que eu respondesse já haviam carimbado meu visto. Os meus medos (para quem falei deles sobre a possibilidade de não conseguir passar pela imigração) foram frustrados. Dei-me conta novamente da providência de Deus quando pisei fora do aeroporto e, ao respirar, expirei um visível vapor pela boca. Sensação impagável. Diverti-me mais um pouco soprando o ar da minha boca, olhei ao redor, senti-me vivo e caminhei em direção aos sonhos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Liberdades...

Não nos detenhamos mais sobre o conceito de "ir e vir", de caminhar, de sumir, de voltar à hora que desejar... De longe, essa não mais é pra mim a definição de "liberdade". Vai além. Ouvi nesses dias sobre saudade e fui remetido a uma insólita reflexão. "A saudade não está naquela casa, nas roupas, nas fotos... Ela está dentro de você".

Pude olhar pra mim mesmo e lembrar quantas vezes tentei fugir e ser livre desse sentimento que tantas vezes corrói. Busquei senão liberdade. E, mais uma vez, concluí que 'ser livre' não corresponde a 'poder fazer'. Aonde vou, carrego comigo meus sentimentos e, sim, minha liberdade. Ou minha prisão. É quando, como incontáveis vezes na vida, desejamos viajar, sumir e esquecer. O que queremos, outrossim, é ser livre dos sentimentos, das sensacões e tantas vezes das pessoas.

Olhei para trás e desejei ser livre novamente. Desejei gritar e, com um ato, atirar fora tudo aquilo que me encarcerava dentro do meu próprio coracão e, ainda, sob a severa pena dos meus devaneios. No entanto, sabia que somente o tempo poderia me tornar novamente livre.

Tornei, então, a ponderar: o tempo constitui o amor ou o amor constrói o tempo? Sempre decaio para a segunda hipótese. Afinal, a relatividade é definida pela intensidade. E o que torna intensa uma vivência não é o tempo decorrido, mas, sim, a profundidade do sentimento que a gerou. Logo, ainda que temporalmente, ou mesmo racionalmente, perceba-se a curteza, se os sentimentos que lhe deram causa forem alimentados em profundidade, terá sido longo e derradeiro. Essa eternidade pode até não ser física, mas, decerto, habitará inolvidavelmente nas lembranças.

E foram as lembranças que me sequestraram a consciência e a liberdade. E deixaram como dívida a saudade. E, agora, eu precisava do tempo como pagamento de resgate.

O tempo, contudo, fazia-me recordar da liberdade. Tornei-me saudosista e ao mesmo tempo imediatista. Não sabia em que espaço temporal queria/deveria colocar-me. Desejava ser livre. Cumpriria minha pena, pagaria com a dor. Mas não queria abandonar meu crime: a paixão que tem construído meu tempo. Eu a quero comigo. Sofro por vezes pelas injustiças da minha errante consciência. Mas a quero comigo.

A sensatez dos meus pensamentos, enganada pelas paixões e discursos do meu coração, buscou uma saída. Encontrei-a. Eu era livre. Sim, eu era livre. Essa foi a minha sentença. Poderia andar com um coração bandido, antes arrestado, mas agora sob liberdade. Um coração que ainda carrega o delito da paixão proibida, mas livre. Uma liberdade condicional, enfim. Eu era livre, mas queria guardar comigo essa paixão. Tentei viver como livre, mas enquanto guardei esse sentimento, fui punido pela saudade, pelas incessantes lembranças e pela inevitável prisão. Estou preso a ela. Mas ainda quero estar, porquanto é uma prisão que, de outro lado, torna livres e altos todos os sonhos. E continuo a sonhar, livre como o mais poético dos apaixonados.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um ensaio sobre a (minha) vida

Resolvi reler alguns manuscritos. Estavam sobre a mesa, ainda inacabados. Não por descuido ou, sequer, desânimo. Na verdade, tem sido uma história recapitulada a cada dia. A cada amanhecer, algo novo e surpreendente me leva a ver em um papel, em seguida a alguns longos – ou tão efêmeros quanto a vida descrita na página anterior – minutos, um coração livre interpretado sob as limitadas tentativas das palavras que aqui pulsam.

Li. Apesar da agonia em escrever mais um capítulo (quando achava que já podia ter o ‘grand finalle’ no último que pretendi escrever), a fim de adorná-lo com as ainda não vistas pérolas que despretenciosamente encontrei escondidas e tanto me alegrei, reli o que já havia sido escrito. Com um unico propósito: definir quem sou. Se sou protagonista, coadjuvante ou figurante.

Resolvi, então, prencheer algumas linhas que completam minha realidade. Linhas quase apagadas, talvez pela pressa em manifestar um coração trovejante de sentimentos, mas, feliz ou infelizmente, legíveis. Li. Reli. Entendi que deveria decalcar o que não se podia ler de forma tão viva. E me descobri.

Não precisei de um raciocínio tão apurado para perceber que se tratava da minha história. Eu podia me identificar em cada palavra, ainda que as tivesse escrito inconscientemente. Ali estava meu coração. Ineteiramente aberto. Era eu. Eu era o protagonista. Alegrei-me pela vida gerada. Eram trechos e versos alegres. Naquelas linhas em que a caneta ameacou falhar, pareceu, na verdade, que eu mesmo as quis tornar sem vivacidade – e consequentemente imperceptíveis e imemoráveis.

Claro. Toda história, especialmente as mais românticas, tem - ou devem - carregar um pouco de melancolia. Elas servem de percurso essencial – ainda que se não a deseje ou a rejeite - para o corolário da paixão. Mas eu particularmente não queria lê-la novamente. Eu era o protagonista. Tratava-se do meu próprio coracão exposto pelo que vivi. E reler as dores significava senti-las mais uma vez. Preferi mantê-las em grafias desprezíveis. No entanto, ainda eram legíveis e, involuntariamente, eu as lia. Naquele exato momento, então, percebi que deveria avivar sua cor. Isso me fez entender quem eu realmente era.

Sem me dar conta da surpresa de que não era protagonista - porquanto esta foi prematuramente lançada de lado, já que meus olhos, apesar de tê-la percebido, desviaram-se para quem ensaiava o papel principal no meu coração - redescobri-me. Meus olhos nao viam a mim mesmo. A janela que se abria e permitia, com intenções ignoráveis, uma varredoura luz adentrar e clarear o que por dias estava apagado na escuridão, buscava a imagem de alguém.

Então, compreendi que tudo o que havia se materializado em palavras vinha, sim, do meu coração, mas eu nao era a fonte. Era ela. As águas que via, e até as que não enxergava, mas lutava por senti-las percorrer-me e lavar-me (já não sei se foram reais ou uma mera ilusão psicologica), fluiam das lembranças e sensações que provei, em níveis físicos ou, precipuamente, emocionais com aquela que certificadamente me tomou para si. Era com ela. Era dela. Percebi que o papel principal no meu coração não era meu, mas dela. Era dela o rosto que via; era dela o cheiro que me esforçava para sentir antes de dispersar-se com os ventos do que de novo eu vivia; era dela o toque que, de tão intenso, podia sentir quase palpável na minha pele. Era ela definitivamente a protagonista dos meus inesgotáveis versos. Eu passei a ser o coadjuvante.

Aquela era uma linda história. E eu a relia. Apressadas certezas findavam cada capítulo. E cada vez mais dava-me por certo dos sonhos que brotavam das entrelinhas. Eu entendia. Não importava que ninguem mais entendesse, a não ser o singelo e cativante coração de quem tanto me inspirava. Logaritmos emocionais – pensava eu – que a mente não decodificava, a não ser um coração com as devidas chaves. Era, portanto, o coração dela que eu buscava alcancar.

A arrazoar sobre a vida, sobre a história que se deslanchava naqueles rascunhos, prestei atenção ao cenário, as circunstâncias que se perfaziam em volta do foco do qual meus olhos até então não tinham desgrudado. Ponderei que precisava desenhar as cores de fundo sobre o qual aquele rosto estava detalhadamente esculpido. Busquei o que havia em minha volta e só enxergava o que havia em volta dela. Eu não importava. Já tinha esquecido-me do que estava tão perto, mas temporareamente invisível. Então, vi alguns figurantes.

Com um pouco mais de atenção e reflexão, notei que certos figurantes traziam cores muito vivas, além das que eu previamente imaginara. Depois de descrevê-los um pouco mais, questionei-me se eles eram meros figurantes. Não. Eram coadjuvantes. Certifiquei-me disso quando precisei fazer parte apenas do cenário, num canto, com tonalidades fracas, enquanto os outros ocupavam, juntamente com a minha musa, o enquadramento focal daquela pintura. Eu passei a ser, destarte, um figurante.

Li e reli toda aquela história, não mais ignorando nenhum traço tortuoso de alguma letra inteligível. Parei a cada ponto. Suspirei a cada vírgula. Refleti a cada parágrafo. Inquieto, buscava encontrar derradeiramente meu papel naquela história. Entendi que não podia ser protagonista e, sim, coadjuvante. Mas percebi-me como figurante, pois, mesmo longe da luz principal, ainda fazia parte daquele enredo. Eu era alguem ali.

Ao fim de tudo, no entanto, percebi que não só não disputava um lugar tão perto da protagonista do meu coração, como não mais fazia parte da sua historia, que era contracenada por ela e por quem eu achei que fosse apenas figurante. E os figurantes eram outros. Descobri-me, afinal. Eu não passava de um espectador, que, outrora inteiramente envolvido, agora apenas contava por aí de um lugar privilegiado a história de outrem.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Poemas em Linha Reta (Fernando Pessoa - Alvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Meus Sonhos: a minha realidade

Acordei. Abri a janela. Vi o Sol. Tudo isso aconteceu como havia tempos não acontecia. Senti-me vivo, alegre, entusiasmado... e, acima de tudo, com o sentimento de realização. Há quanto tempo, afinal, não acordava tão cedo pra... fazer nada! Tomei um bom café da manhã, como também havia esparças lembranças da última vez. Li. Nossa! Fui à estante de livros e, livre e desimpedido (essas são mesmo as palavras que mais se adequam às minhas sensações naquele momento), dei-me o requinte de escolher o que queria ler naquela manhã. Quis ler sobre História. Achava que deveria conhecer mais, intelectualizar-me mais... reviver!

Assim começou esta manhã, que, por mais que tenha sido real, confunde-se com metáforas. Posso descrever a vida, o Sol, a janela que me levou o olhar ao lado de fora - à vida - como a literalidade de um dia que representou o ponto fotográfico ideal de sobre a ponte que me leva ao lugar almejado. Mas, talvez com maior precisão do que o que os olhos definitivamente viram, isso descreve o que acontece dentro de mim.

Acordei. Abri a janela. Vi o Sol. Ponderei viver. Decidi ver o Sol que brilha do lado de fora. Revolvi fugir dos recôncavos que me escondiam das minhas prórprias dores. Por um considerável tempo, refugiei-me na escuridão da minha mente: ideias envelhecidas, experiências já deterioradas pelas traças das tribulações, sentimentos amedrontados... Desejei viver. Renovar ideias, ter algo novo pra contar e, especialmente, ter vida pra sentir. A imagem da dona dos meus olhos, sobre a qual pus os movimentos que a minha memória guardara nítidos de dias de realismo, serviu-me de porta-retrato e inspiração.

Um breve prelúdio sob as silenciosas horas noturnas encarregou-se de gerar o brilho que raiaria logo cedo. Pode-se falar de idealizações; aquelas que desfiamos antes de derradeiramente adormecer... mas, ao mesmo tempo - ou talvez intrinsecamente -, de uma correnteza que, suave, carrega-me sutilmente para o lugar dos sonhos. Ainda me é translúcido se os sonhos me geram vida ou se a vida me gera sonhos. A única certeza é a de que ao toque de cada minuto - o monótono som do ponteiro dos segundos, gritantes pelo silêncio do quarto, já se tornara parte do compasso de cada pensamento que viajava à velocidade da explosão do coração - aquela voz tão doce, cujas perfeitas palavras ecoava viva em minha recente memória, movia sonhos e idealizações.

Sinto-me bem. Sinto-me vivo. Sinto-me completo. Sinto-me realizado. Simplesmente por percorrer um caminho que traz de volta a vida. Ainda sinto falta do toque suave das mãos que me acariciam a alma. Ainda anseio o abraço que me envolve as razões. E pego-me paralisado diante de letras eufóricas e grafias ansiosas; descubro-me anestesiado por cada doce declaração, enquanto dentro de mim, um reboliço sem fim. Mas as janelas abertas me permitem ver o Sol a brilhar intensamente ao horizonte. E sonho. E planejo. E descubro. E desejo. Ao menos até que a viração do dia me leve de volta aos sonhos...

Então, fecho a janela sob a cantaria das estrelas e adormeço, para sonhar com a imagem que, pequenina em minha frente, rega novos pensamentos e sonhos. Durmo para sonhar, apesar de não requerer a inconsciência, porquanto na minha mais clara racionalidade, planejo. Teimo em manter-me acordado, pensando, relembrando e sentindo, mas, assim, adormeço... E sonho. Mas vou-me com a marca de que nesse dia, acordei, abri as janelas, vi o Sol e percebi que tudo é real.

domingo, 28 de novembro de 2010

Apenas saudades... do distante que não me é estranho

O silêncio nunca foi tão ensurdecedor. Parece que todas as lamentações passaram a fazer sentido, quando antes eram apenas lidas - ou ouvidas - e ignoradas. A impiedosa canção da verdade... Será da verdade? Já não sei se é ou se é apenas um delírio originário de um sentimento inquilino. Inquilino ou cônjuge? Já não sei se logo se vai ou se permanecerá até que a morte o leve. A única certeza é de que, dentro de mim mesmo, estou perturbado. Até quando? Já não arrazoo mais...

Sinto-me inútil, apesar da ebulição de pensamentos. Não consigo ordená-los - ou talvez nem me importe em fazê-lo. Só sinto vontade de escrever e derramar sobre o pano o vinho nunca provado... A cada frase, mil reflexões, porém apenas uma palavra escrita. Isso tem, no finalzinho do paladar, um gosto adocicado. Entendo agora que "é no território da melancolia que o poeta lavra a palavra, acende iluminuras". Ou que "a Literatura nasce do que não tenho e por isso a ausência é fator criativo".

Simplesmente escrevo. E vou escrevendo. Sinto-me saudosista. Mas saudade de quê, se nunca possuí?! Saudade de uma voz que não pode ser lembrada pelo sorriso que nunca vi? Saudade do abraço que não pode ser revivido pela ausência do tão desejado toque que nunca experimentei? Mas sinto falta... Sinto muita... Só sei disso. E sonho... Continuo a sonhar... Sem um rumo, é certo, mas caminho... Ainda quero caminhar. Ainda quero escrever. Ainda tenho por que escrever, porquanto "a ausência é o fator criativo". E depois? E se a ausência definitivamente der lugar à doce presença que tanto desejo?

Daí, então, terei mil poesias. Já não mais com tons monocromáticos... Não mais será uma canção de uma nota só... Não mais será uma fábula repetida que se ouve antes de adormecer - quando nos querem fazer dormir e esquecer. Terá cores, em essência como são: infinitas.

Mas não estou tão certo disto, posto que um breve sussurro ou um chamado ao longe me tira completamente a atenção de mim mesmo. Aquela voz, aquele convite, me faz voltar atrás de todas as decisões. E assim deixo a caneta sobre o papel, aguardando um desfecho... que talvez nunca existirá. Muito provavelmente a página será virada e outra poesia será escrita.

sábado, 27 de novembro de 2010

Quando o guardião perdeu suas armas

"Quero muito ficar contigo", foi o pensamento que ecoou por todos os sentidos e níveis mentais e emocionais daquele que um dia se encubiu de guardar o mais precioso tesouro. Deu-se conta de que perdeu toda a segurança quando este pensamento tornou-se palavras audíveis.

Sou pensante. Logo, existo - completaria algum filósofo esquecido pelo tempo. Por certo momento, embalsamado com suas filosofias, até que alguém, em algum momento, se lembra de alguma de suas antes célebres frases e resolve refletir a respeito; especialmente, quando se vê perdido na possível motivação daquele que a escreveu primeiramente. E compreende-o.

Arrazoo que pensamentos são como portões, porquanto é somente a partir desses conceitos que nos servem de parâmetro a qualquer passo que definitivamente nos permitimos galgar qualquer caminho, adentrando qualquer lugar. Isto é, se algum pensamento ou conteito não parecer razoável, a porta permanece fechada, e aquelas novas sensações e vivências não são permitidas a entrar no coração. Caso contrário, as portas se abrem e o acesso é irrestrito. Talvez isso explique como algumas mudanças em nós mesmos acontecem tão rapidamente.

Acontece que alguns pensamentos, pré-concebidos, nos servem de guardiões. São como princípios-mor, com patentes maiores dentro de nós mesmos. É engraçado vislumbrar assim, especialmente quando nos lembramos de quantas idéias buscamos para nos convencer a nós mesmos de algo, geralmente em vão, porque tais guardiões se mostram maiores e mais definidos, combatendo os eventuais sofismas que tentamos aludir. Na nossa própria mente, recrutamos soldados para combater a nossa maior [própria] defesa, os maiores guardiões - os mais sólidos princípios, convicções e razões.

E assim vivemos. À medida que envelhecemos e amadurecemos (a ultima parte não é necessariamente um corolário), fortalecemos esses guardiões. Com o passar do tempo, alguns morrem, pois percebemos que guardam o que não precisava ser guardado, ou defendiam o que não havia fundamento para o ser. É a eterna metamorfose pela qual, até nosso último dia, viveremos. Alguns princípios permanecem, claro. Exemplos disso são a cautela, a prudência, a paciência... São os grandes guardiões do coração.

A paixão. Ah, a paixão. É só mostrar-se que os os alarmes soam e os guardiões cerram-se em guarda. Em alguns momentos, diante de algumas circunstâncias, em maior rigor ainda. Aquela tenta adentrar a mais pura fonte, a que gera vida. E é por isso que essas razões tornam-se tão intensas. Aguçamos ao máximo nosso senso, nossos sentidos. Não deixamos a paixão entrar até que tenhamos certeza de suas intenções. E, com passar do tempo, conhecemos seus argumentos. Tornamo-nos um pouco mais resistentes; às vezes, irredutivelmente invioláveis.

É exatamente este meu pensamento. Vivi. Vivi muito. Reflito sobre o tempo e suas implicações sobre o que chamamos de experiência ou maturidade. Sobre as patentes alcançadas por esses tão respeitáveis guardiões.

E assim eu me encontrava. Em um quartel genaral, selado, bem protegido. As razões eram, sim, grandes guardiãs, empunhando uma palavra tão convicta e segura como nunca se vira. Alguns caminhos até o coração... Ou melhor, alguns caminhos que levavam a partes mais profundas do coração eram intransponíveis naquele momento. A vigilância era realmente forte. Nada poderia me convencer do contrário. Nenhum sentimento poderia passar daquele limite. Eu estava muito certo disso. Estava.

"Mas...", foi a expressão, tão pequena e aparentemente insignificante, que pôs em risco todas as tão-firmes razões. Foi o momento em que toda aquela segurança começou a enfraquecer: quando do admitir ressalvas.

Percebi que ia perdendo aos poucos algumas sentinelas. Dava conta quando já acolhia aquela paixão em alguns cômodos onde antes apenas se ecoavam passos de rotineira checagem. Realmente ecos, pois nada havia ali desde que mobílias de moradas passadas foram definitivamente retiradas e só se via um quarto vazio. Vazio, mas protegido - constantemente vigiado -, afinal este é um lugar especial, não tão acessível, não fosse somente uma ante-sala.

Algumas portas foram abertas. Essas idéias já não estavam tão firmes e permitiram que a paixão, uma visitante antes terminantemente proibida de entrar, entrasse. E ficasse. E onde estavam aquelas sentinelas que deveriam guardar aquelas portas? Já acomodados, encantados com uma silhueta tão doce, e pura, e frágil, e tão singela... e tão encantadora... Ia perdendo as minhas defesas aos poucos. Mas os verdadeiros guardiões, os mais fortes princípios, sob o comando da prudência, aquela cuja tão-venerada aliança foi feita com a cautela, outro pilar de guarda, ainda se mantinham de pé. Logo, ainda havia segurança, pois o lugar mais secreto ainda estava fora de alcance.

No dia em que o alarme tocou, ninguém ouviu. Todas as defesas deveriam estar a postos - e rapidamente! Dos guardiões, as ordens, a tática, a esquiva, o recuo, o avanço, o ataque. Nada se teve. Nada se ouviu, a não ser uma suave melodia carregada por uma brisa tão suave que anestesiava até quem ainda não conscientizava qualquer juízo. Pensou-se em traição, em um golpe que poderia ter começado no mais alto grau hierárquico; cogitou-se uma invasão invisível, minunciosamente articulada; ou mesmo uma tentativa de furtar o que de mais valioso era guardado.

Era exatamente o que acontecia. Não se havia mais razões. Não se havia mais armas. Não mesmo, porque qualquer palavra já não se recordava das antigas ordens, das antigas convicções. Não por desobediência aos grandes conselheiros - os guardiões-mor: a cautela, a prudência, a paciência, além da sensatez. Todos eles também já haviam aberto as portas que durante longo tempo guardaram com vigor. E quem ainda não entendia, ouvia os rumores do que acontecia. Ouviu-se falar de conselheiros que geralmente, e há tempos, não se viam.

As armas foram capturadas, mas não de uma maneira violenta como se imaginou; os escudos, removidos, mas não sorrateiramente como se previu. Foram graciosamente retirados. Às sombras de todos, sem que nenhuma outra idéia pudesse conceber, manipular ou assistir e certificar. Foi por um conselheiro, a quem todos os guardiões obedecem, diante de uma voz que não se ouve como um trovão, de acordo com o que se ouvia falar, precipuamente pelos mais novos soldados, pelas recém-concebidas idéias. Era uma voz suave, paciente, pacificadora e, principalmente, sábia. Representa o controle, o equilíbrio e a certeza. Não se tinha ouvido dele até este momento em que a maior das decisões precisou ser tomada: abrir o coração. E, sim, ele, o amor, convencido de tudo, decidiu deixar entrar a paixão, desta vez vista com pureza, desarmada, com propósitos imperecíveis.

Estão a expor suas razões a esta altura... e o que se ouve falar é que parece que pensam em se aliançar.

A pensar nisso tudo, depois de conseguir restabelecer as bases, que não foram destruídas ou danificadas, mas reafirmadas, eu concluí: penso, existo e tenho vivido.

"Quero muito ficar contigo". Agora entendi por que e de onde veio essa sentença. E, agora, estou certo disso. Convicto. E a nova ordem dada aos guardiões é sobre a paixão, sobre o amor... sobre a aliança entre a paixão e a decisão do amor. Deve ser guardada, protegida, para que não seja violada, roubada ou manchada.